terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Natal de 72: um milagre na montanha!

Local do acidente na Cordilheira dos Andes - Imagem atual no verão
Fonte: Viven!

Há exatamente 39 anos um grupo de dezesseis cavalheiros se reúne a cada noite de 23 de dezembro para cumprir um sagrado pacto. O local uma acolhedora sala de madeira, pedra e lareira em uma casa de Montevidéu, Uruguai. Como motivo o encontro anual da Sociedade da Neve para a celebração do milagre do seu reencontro com a vida.

Engenheiros, agrônomos, empresários, médicos, pouco importa a profissão, o credo ou a origem, pois em comum partilham uma memória do passado e a coincidência de serem todos homens. Se hoje é o fogo que os reúne, há quase quatro décadas foi de gelo a têmpera que forjou para sempre um inquebrantável vínculo de aço.

José Pedro, Roberto Canessa, Roberto François, Alfredo, Daniel, Roy, José Luis, Alvaro, Javier, Carlitos, Fernando, Ramón, Adolfo, Eduardo, Antonio e Gustavo. Todos na faixa dos 60 anos são os dezesseis uruguaios que sobreviveram ao acidente do tristemente célebre Vôo 571 da Força Aérea Uruguaia, que os aprisionou sem qualquer recurso por 73 dias no coração da Cordilheira dos Andes.

O ACIDENTE

A história é bem conhecida. Em outubro de 1972 quarenta e cinco passageiros, na sua maioria jovens na faixa dos 20 anos de idade e integrantes de um time colegial de rugby, embarcaram em um vôo fretado em Montevideo rumo a Santiago do Chile. Durante a travessia dos Andes uma tempestade e erros de navegação levaram a aeronave Fairchild a chocar-se contra o pico de uma montanha, perdendo as asas e a cauda e deslizando por uma encosta recoberta de neve até um vale isolado na cordilheira.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve
Apesar de 30 passageiros terem milagrosamente sobrevivido ao choque imediato, tecnicamente uma verdadeira façanha, foram ainda obrigados a resistir sem qualquer preparo, comida e medicamentos a temperaturas abaixo dos 30 graus negativos trajando apenas leves roupas de verão. Dez dias após um pequeno rádio de pilhas trouxe a desesperadora notícia de que as operações de resgate haviam sido oficialmente encerradas, deixando os sobreviventes à sua própria sorte.

A absoluta falta de comida, o instinto de sobrevivência e um esforço enorme para vencerem barreiras pessoais e religiosas ínsitas à cultura humana universal, além de uma visceral repugnância física ao canibalismo, fez com que recorressem aos corpos dos amigos falecidos como fonte de alimento. Como se isto fosse pouco, os ferimentos do acidente e uma grande avalanche reduziram outra vez o grupo aos seus atuais 16 integrantes.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve
Após dois meses isolados na montanha e com a perspectiva de morrerem por inanição, em uma heroica jornada de dez dias sem qualquer conhecimento de técnicas de montanhismo, Nando Parrado e Roberto Canessa conseguiram chegar à localidade de Los Maitenes, no Chile e contatar as forças de socorro.

Foi então que no dia 23 de dezembro de 1972, véspera das celebrações de Natal em todo o planeta, quando o último dos 16 sobreviventes foi resgatado da montanha pelos helicópteros nasceu a Sociedade da Neve.


Imagem captada a partir do helicoptero de resgate - 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

UMA GRANDE FAÇANHA

A National Geographic qualificou a jornada de autoresgate dos uruguaios como um dos grandes épicos do século XX, motivo suficiente para ser rememorada, estudada e celebrada como um verdadeiro triunfo do espírito humano sobre as adversidades e forças da natureza que então pareciam invencíveis.

Se simplesmente resistir ao acidente com o Fairchild foi um desafio à lei das probabilidades, tudo o que sucedeu a partir daí até a retirada do último passageiro da montanha foi também fruto da coragem, inteligência, engenhosidade, união, fé e do espírito de grupo dos acidentados, vários deles pouco mais do que adolescentes recém egressos da escola e acostumados com a tranquila vida da classe média alta de Montevideo.

O time de rugby. Fonte: La Sociedad de la Nieve
E se para os olhos da sociedade de 1972 a necessidade de recorrerem ao canibalismo foi a violação de um autêntico tabu, hoje o caso é admirado e revisitado sob os enfoques da medicina, da psicologia e da administração, assim como pelo estudo das técnicas de sobrevivência em situações extremas tendo em conta o acerto das decisões tomadas pelo grupo.

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

Fotos originais captadas pelos sobreviventes em 1972
Fonte: La Sociedad de la Nieve

Passados os anos, o Vôo 571 do Fairchild assumiu uma certa aura cult. O que antes era um ponto isolado na montanha hoje pode ser visitado por meio de expedições especiais até os destroços do avião. Livros foram escritos e produzidos filmes sobre o caso. A cultura superconsumista do Século XXI, ávida de novidades efêmeras, requentou seu interesse sobre o acidente e os integrantes da Sociedade da Neve, esquecidos por quase duas décadas, hoje ministram palestras por todo o mundo e mantêm uma fundação que auxilia comunidades carentes. Tudo a favor, ponto para eles!

LITERATURA E CINEMA

Em 74 foi lançado internacionalmente o livro com o relato da história a partir das entrevistas feitas pelo britânico Piers Paul Read, No Brasil recebeu o título de “Os Sobreviventes” (Alive), um best seller constantemente reeditado no mundo.

Com farta divulgação do caso na mídia e apesar dos meus pais terem escondido o livro por tratar-se uma leitura muito “forte” para mim, aproveitei a distração em um final de semana de férias na praia Paraíso (RS) e encontrei o livro na mesa de cabeceira. Com a limitada compreensão de uma criança de apenas 9 anos mas já com o espírito de um futuro devorador de livros, avancei o que pude sobre suas páginas e fotografias antes que fosse descoberto. Mas meus pais tinham razão. O conteúdo crú do relato fez com que até hoje eu relembre perfeitamente estes ingênuos e distantes momentos de ilícito infantil.

Com o passar do tempo o assunto voltou às manchetes com a bem produzida versão cinematográfica de "Vivos!" (Alive, 1993), narrado por ninguém menos do que John Malkovich. Terminei por reler com olhos maduros o ainda excelente e detalhado relato original de Piers Paul Read e também as versões de Nando Parrado (Milagre nos Andes, São Paulo: Objetiva, 2006) e de Carlitos Paez (Despúes del Día 10, Alienta, ISBN 9788493521264, 2007), esta sem tradução no Brasil.

Há pouco ganhei de presente e literalmente degustei “La Sociedad de la Nieve”, de Pablo Vierci (Sudamericana, ISBN 9789500729758, 2008), tido como o livro definitivo sobre esta epopeia. Nele os 16 sobreviventes, já estabelecidos na vida, pais de família e avôs, com parte dos seus fantasmas exorcizados, apresentam suas reflexões depois de 35 anos do acidente, alguns saindo do retiro pela primeira vez desde os anos 70. O autor acompanhou os sobreviventes e seus filhos em uma visita ao local de acidente em 2006, dando origem ao livro e também a um tocante documentário ("La Sociedad de la Nieve" / Stranded", de Gonzalo Arijón, 2008).

Apesar de já ter lido muitas obras do gênero e me achar calejado com relatos de situações extremas, não pude deixar de me emocionar com as impressões individuais dos 16 coautores, cada uma delas com um enfoque tocante, original e de todo diferente dos demais. O livro, que comecei a ler meio desconfiado de ser uma estratégia caça-níqueis sobre o tema, foi uma gratíssima surpresa e lamento que tanto ele quanto o documentário com o mesmo nome não tenham tido no nosso país a divulgação que merecem.


Se nestes dias de Natal somos levados a direcionar nossos pensamentos para ideais de paz e fraternidade, independente de credo ou convicção, vale saber, e lembrar, que na última noite do dia 23 de dezembro, assim como o farão a cada ano enquanto viverem, os 16 membros da Sociedade da Neve estiveram reunidos com seus amigos e familiares para celebrar o milagre daquele longínquo Natal de 1972.

Testemunhos verdadeiros desta inacreditável vitória diante da adversidade extrema, em que somente a coesão como grupo lhes permitiu o reencontro com a vida, eles nos fazem lembrar com humildade que, em um tempo em que Gaia se revolta contra os séculos de desmesurada agressão humana, diante dos elementos da natureza somos ínfimos e somente a união, a fraternidade e a fortaleza de espírito nos fazem todos sobreviventes neste planeta que nos serve de lar.

Um Feliz Natal e um grande 2012 para todos nós!

(** Nota do Autor: Existirem fotografias originais da época como documento dos dias de isolamento dos sobreviventes na montanha é algo extremamente raro e importante. Me fez lembrar as fantásticas imagens em chapa de vidro captadas pelo australiano Frank Hurley na expedição de Shackleton à Antártida e que hoje, um século depois, constituem um registro histórico de valor absolutamente inigualável.)

PARA SABER MAIS:

- Viven! – Site oficial da Sociedade da Neve
- La Sociedad de la Nieve (la película) trailer
- La Sociedad de la Nieve - Site da produção do filme, com excelentes imagens da época e da produção
- Alive movie trailer - HD
- Alive Survivors Look Back – National Geographic Adventure
- Nando Parrado – Site oficial
- Perfil de Nando Parrado no Facebook
- Carlitos Paez – Site oficial
- Antonio Vizintin – Site oficial


ALGUMAS IMAGENS DO DOCUMENTÁRIO "LA SOCIEDAD DE LA NIEVE" - Fotografias de César Charlone















sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Costumes: Gravata anti-ecológica!

Imagem: Jornal Zero Hora, Porto Alegre, Edição 16.12.2012, p. 32
Para quem precisa valer-se de vestimentas mais formais na execução do trabalho em um país tropical como o nosso, especialmente no meu caso que enfrento um legítimo calor senegalês no verão de Porto Alegre, parece haver alguma esperança de melhor conforto no horizonte!

Pois sob bandeira de economia de energia e bom senso no uso das vestimentas durante o verão, o Governo do Chile está sugerindo a abolição do uso da gravata nos escritórios do país durante a estação mais quente do ano, quando a média da temperatura na capital Santiago fica nos 30ºC.

Ora, isto é moleza perto dos picos de calor na capital gaúcha, quando a conjunção de altas temperaturas com a umidade não raro chega a registros acima dos 40ºC. Em fevereiro do ano passado Porto Alegre registrou 41,3ºC (!!) sendo uma verdadeira tortura absolutamente non sense ser obrigado a vestir paletó e gravata em determinadas situações de trabalho sob um calor escaldante como este.

Mas afinal, para que mesmo serve a gravata?

Certa vez um amigo me disse que foi inventada para esconder os botões da camisa mas acho que serve mesmo é como um irresistível imã para respingos de molho e como mais um motivo de stress na hora de se vestir. Afinal, já não chegam os abacaxis do dia-a-dia, ainda há que saber se a moda do dia é a gravata com listras ou sem, com nó encorpado ou fino, gravata estreita ou larga, curta ou comprida, com tons pastéis ou lilases?

E isto para não falar de muito cara por aí que pena acertar o nó da gravata... Eu, por exemplo, só fui aprender já bem graúdo durante o serviço militar.

Quem sabe agora, sob a justificativa politicamente correta da economia de energia, se conquiste algum avanço nos costumes sociais concedendo um pouco mais de conforto à classe masculina nos sufocantes meses de verão no nosso Brasil tropical!

E confiram abaixo a notícia da Zero Hora...

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Chilenos dizem não à gravata


A fim de economizar energia, governo sugere que acessório deixe de ser usado em escritórios durante o verão no país.

Dispensar o uso de gravata no verão já seria um alívio por si só, tendo em vista o sufoco que é passar o dia com o nó apertando o pescoço. No Chile, o tema virou assunto de Estado. E por uma outra razão: as autoridades estão incentivando os homens a deixar de usar gravatas para economizar energia.

A previsão é de que a temperatura se mantenha acima dos 30ºC durante o verão chileno, aumentando consideravelmente o uso de ar-condicionado. O ministro de Energia, Rodrigo Alvarez, diz que a medida deve ajudar a reduzir o uso do aparelho, gerando economia de eletricidade Ele gravou até um vídeo oficial com outros ministros retirando a gravata e pedindo que os chilenos façam o mesmo.

Segundo Alvarez, deixar a temperatura de um escritório aumentar entre 1°C e 3°C pode reduzir o gasto de energia em cerca de 3%. Em um comunicado, ele estimou que, se os setores público e privado implementarem a medida entre janeiro e março, a economia pode chegar a US$ 10 milhões (R$ 18,7 milhões).

– Essa medida ajudará a eficiência energética do país – disse o ministro.

Alvarez também incentivou a população a reduzir o consumo de energia em casa, por exemplo, desligando aparelhos eletrônicos que não estão sendo usados. A produção de eletricidade no Chile durante o verão é sempre limitada, já que o calor reduz o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas.

Fonte: Jornal Zero Hora, Porto Alegre, Edição de 16/12/2011, página 32

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Canionismo: Discovery Channel poderá reconstituir resgate no Rio Grande do Sul

Foto Adriana Franciosi - Jornal Zero Hora. Veja o detalhe do helicóptero no canto superior esquerdo da imagem.
 
Durante o  feriado de Carnaval de 2010 houve um acidente bastante sério com uma equipe de canionistas na região de Maquiné/RS, e que relatei aqui no Blog Terra Australis (vide links abaixo).
 
Na ocasião o mineiro Juliano Romancini ficou ferido em estado grave depois de ser atingido por uma pedra, mobilizando no socorro seus colegas canionistas e uma equipe de resgate aéreo do Corpo de Bombeiros da Brigada Militar gaúcha.
 

Rafael Britto, canionista da Associação Cânions da Serra Geral - ACASERGE que participou do resgate e o helicóptero MD 530E do GPMA. Foto Adriana Franciosi - Jornal Zero Hora
 
Depois de uma operação de resgate muito arriscada e complexa, Juliano foi hospitalizado com sério risco de vida e precisou de um longo período para restabelecer-se. Hoje, depois de muito esforço, coragem e força de vontade, está perfeitamente recuperado e já de volta às atividades de canionismo.

Pois nestes dias eu soube que este fato está sendo pesquisado por equipe do Discovery Channel para um possível episódio da série "Viver para Contar", produzida pela Conspiração Filmes, do Rio de Janeiro.

Sem dúvida trata-se de um bem sucedido case de eficiência, coragem e preparo técnico da equipe de canionistas que acompanhava Juliano Romancini e que, ao final, junto com o corpo de resgate aéreo do Corpo de Bombeiros gaúcho, foram os responsáveis imediatos para que esta história tivesse um final feliz.

Agora é esperar para ver se o documentário será mesmo produzido pelo Discovery Channel.

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Saiba mais sobre o caso acessando as postagens de 2010 sobre o tema no meu blog pessoal nos links:

- Canionismo/Resgate (I): Detalhes do salvamento em Maquiné/RS, de 15/02/2010

- Canionismo/Resgate (II): Detalhes do salvamento em Maquiné/RS, de 17/02/2010

e também

- Helicóptero do GPMA resgata homem ferido em Maquiné/RS ao fazer rapel (atualizado), de 15/02/2010